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  • Foto do escritorEstúdiosEO Entre Olhos

COLETIVO ENTRE OLHOS, UMA DÉCADA DE PRODUÇÃO CULTURAL NAS PERIFERIAS, OU DAS ESTRATÉGIAS DE COMO VIVER JUNTO

Perfazendo uma nota discreta sobre a angústia coletiva de narrar-se contra a solitude, sentenciado por Roland Barthes, acessada por meio da palestra de Peter Pal Pelbart “Como viver só?”, disponível no canal do Youtube do coletivo entre olhos, montada com imagens aleatórias de registros avulsos realizados entre 2014 e 2015, primeiro ano de atuação do coletivo Entre Olhos em periferias em Fortaleza, buscamos comentar sobre o movimento a ascendência de produções culturais periféricas no Ceará que ganham fôlego ainda nos anos 90, em parte como repercussão das discussões sociais assentadas nas questões de território, classe e identidades que se materializaram em movimentos estéticos, políticos e de território; uma onda de debates, organizações e conjuntos que se demarcavam como “coletivos”. Este processo fez um efeito de coletivização das práticas culturais urbanas, rurais, identitárias, fazendo-se afirmar no cenário da produção artística local cearense a alcunha dos hoje conhecidos, “coletivos culturais” - o coletivo entre olhos é mais um destes coletivos.


Uma década de produção cultural nas periferias. Não é fácil, isso é o mais simples de dizer. O que motiva, no meio das contas e balanças subjetivas, é as relações e inspirações que se estabeleceram ao longo dos anos. Nos dá Entre Olhos, estamos juntos, ironicamente para não ficarmos só. A presunção da coletividade como arranjo externo, na verdade, como Barthes dizia, é uma pulsão contra a angústia de estar só. Nunca foi sobre produção cultural, foi sobre afetividade, amizade, companheirismo, foi (e ainda é) sobre montar um mundo cultural orgânico, acessível à vida, como acreditava Nego Bispo. Mas tem dias que o ânimo baixa, e essas subjetivações abstratas não fazem nenhum sentido pro morador da periferia de Fortaleza; e a vontade que paira na maioria das cabeças criativas do lado de cá é seguir o caminho simples, usual e programático da experiência cultural em Fortaleza que é aceitar o “corredor cultural da cidade” como sendo os espaços de investimento, concentração e presença das elites culturais, das instituições privadas e públicas e a “nata artística” como os sujeitos que circulam nesses espaços. E vão lá, são as nata dos artistas na Estação das Artes, no Dragão do Mar, mas pobre e preto na sua rua, se a polícia passa é um, dois. O que muda de um bairro para outro, além da estrutura urbana, é o contexto, a compreensão, o entendimento local dos sujeitos que circundam o espaço sobre “o que acontece naquele local”. Rapidamente um Fortalezense questionado sobre o que acontece no Dragão do Mar ou Estação das Artes, ele diria: Arte.  Mas na Rua dois de Maio ou na travessa Planalto Pici, mesmo com instituições mais antigas que as referidas do Centro da cidade, ainda sim, estas estão longe do calendário de apresentações do novo espetáculo do grupo de teatro mais foda de Fortaleza ou do lançamento da grande promessa do audiovisual cearense. O que falta? Boa vontade, na maioria das vezes. 


Colocando numa frase é até boba essa compreensão, mas Fortaleza ainda não deixou essa visão provinciana e com requinte da pomposidade elitista de que a arte é extraordinária, exclusivista. O que promulgamos, em coletivo, e curiosamente em alinhamento à teoria artística e a uma filosofia orgânica: é que a arte é ordinária, é como arroz e feijão, tem que tá na casa do povo, todo dia. 


Da José Bastos pra cá, de fato é muito difícil e cansativo levantar uma atividade cultural com experiência técnica de iluminação e som, que também, de fato a população periférica precisa. Hoje, cansado de dez anos, entendo os artistas, é trabalhoso não fazer a mesmice. É razoável dizer que mesmo com dez anos de atuação com cineclube, projetos e ações artísticas nas periferias, as comunidades assistidas pelo coletivo Entre Olhos pouco (ou nunca) vivenciaram uma experiência cinematográfica com qualidade tecnologia, conforto e controle térmico e sonoro. Os coletivos, sozinhos, não vão resolver a situação da democratização do acesso e o fomento e dinamização da cadeia produtiva. Os editais, tão pouco! Não aconteceu assim em cidades brasileiras e do mundo que pactuaram, minimamente, a experiência das periferias urbanas e metropolitanas como válidas para se inserirem nos calendários, projetos e ações culturais locais. É disso que estamos falando, validação institucional. E isso não se resume a um papel de ponto de cultura, ou um perfil no mapa cultural do Ceará. Validação é visibilidade, é convite para eventos públicos, é a organização junto ao setor privado de programas de bairro de incentivo à experiência artística na localidade, é a formação de programações nos territórios, é a descentralização dos equipamentos exclusivamente artísticos e culturais, é a tomada de consciência dos grupos artísticos e culturais de inserirem nas suas programações de lançamento os espaços de periferias e deixarem de aparecer só quando for pra realizar contrapartida social de edital.  


Em dez anos de atuação entendo que essa mudança perpassa a compreensão coletiva da categoria artística, do poder público e do setor privado, de que o maior corredor cultural, com número de consumidores e fazedores, são as periferias, são as experiências criativas de uma imensidão de coletivos e instituições comunitárias que há décadas (muito mais que uma) atuam na realização cultural nas periferias de Fortaleza e simplesmente são desconhecidas do grande público. Repito, desconhecidas! É uma esquizofrenia da classe artística Fortalezense achar que a autonomia financeira vem na centralização das experiências artísticas em três, quatro bairros da cidade. Isso só favorece à especuladores urbanos. É uma inocência achar que vamos parar de importar talentos das diferentes linguagens artísticas para o eixo Centro-Sul se não mudarmos a postura artística e cultural da cidade, e botarmos o povo pra consumir, com qualidade técnica e tecnológica teatro, cinema, artes visuais e as infinitas possibilidades criativas locais em suas regiões, ativando as economias dos e nos bairros.   


Em meio a uma pseudo felicidade de comemoração de dez anos, o coletivo Entre Olhos, presente nas periferias e interiores do Ceará e em outros estados, coleciona premiações em editais públicos no país, projetos realizados, mostras de cinema e processos expositivos que estão no calendário nacional; Esse ano, nossos sete, oito artistas do coletivo, não terão problemas financeiros, mas ainda sim, hoje as 9 da manhã, no Planalto Pici, em Fortaleza, ou no Largo do Cajá, em Recife, ao lado do espaço onde fazemos o cine-clube três tiros acertaram um jovem morador. Dezoito anos, participava de batalhas de Rap, acabou virando aviãozinho. Dez anos depois e o bairro, a periferia de Fortaleza, parece a mesma. Uma parte da culpa disso é carregada pelos condomínios da Aldeota e pela complacência dos artistas.


É preciso que os artistas, produtores e instituições de Fortaleza e do Ceará entendam, realmente e com sinceridade, que a periferia é a cidade. Ao contrário, nos vemos daqui a dez anos, com as mesmas questões. 


Erick Sousa de Sousa

Diretor de Produção Estúdio E O

Coletivo Entre Olhos

Fortaleza, 15 de Janeiro de 2024


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